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HIFU no câncer de próstata com ondas de ultrassom focalizadas sobre o tumor
sexta-feira, 18 setembro 2026 / Publicado em Blog

HIFU no Câncer de Próstata: Quando Usar na Terapia Focal e Após Radioterapia?

O ultrassom focalizado pode tratar uma área da próstata com precisão. No entanto, o benefício depende de indicação correta, planejamento cuidadoso e acompanhamento por vários anos.

O que você vai encontrar neste artigo: Você entenderá como funciona o HIFU no câncer de próstata. Também verá quando essa tecnologia pode ser usada como terapia focal e quando pode ajudar diante de uma recidiva após radioterapia.

Ao longo da leitura, você encontrará:

  • como as ondas de ultrassom destroem o tecido tumoral;
  • quem pode considerar o tratamento focal com HIFU;
  • quais resultados e limitações os estudos mostram;
  • como funciona o HIFU de resgate após radioterapia;
  • por que PSA, ressonância e biópsia continuam importantes depois do procedimento.

HIFU significa ultrassom focalizado de alta intensidade. A proposta é concentrar energia no tumor e poupar o restante da próstata. Porém, a precisão do aparelho só produz um bom resultado quando os exames mostram, com segurança, onde está a doença.

Minha visão no consultório: a pergunta principal não é apenas “o HIFU funciona?”. Antes disso, precisamos perguntar: “este tumor pode ser tratado com HIFU sem deixar uma doença relevante para trás?”.

O que é HIFU no câncer de próstata?

O HIFU usa ondas de ultrassom, e não radiação. O equipamento concentra essas ondas em um pequeno ponto dentro da próstata. Nesse ponto, a temperatura sobe rapidamente e provoca a destruição das células.

O princípio lembra uma lupa concentrando luz em uma área específica. Contudo, no HIFU, o médico controla a profundidade, a posição e o volume que receberão energia.

Na maioria dos sistemas modernos, o tratamento ocorre por via transretal. O especialista visualiza a próstata por ultrassom e pode integrar as informações da ressonância ao planejamento. Em seguida, aplica a energia ponto a ponto até cobrir a lesão e uma margem de segurança.

O HIFU não retira a próstata. Além disso, não exige cortes externos nem utiliza radiação ionizante. Dependendo do caso, ele pode tratar apenas a lesão, uma região maior ou grande parte da glândula.

Como funciona a terapia focal do câncer de próstata com HIFU?

Na terapia focal, o objetivo não é destruir toda a próstata. Em vez disso, tratamos o foco de câncer clinicamente significativo e preservamos, quando possível, as estruturas ligadas à continência e à função sexual.

Antes do procedimento, o médico precisa construir um mapa confiável da doença. Esse mapa costuma reunir:

  • ressonância magnética multiparamétrica;
  • biópsia direcionada à lesão;
  • amostras de outras áreas da próstata;
  • grau do tumor, PSA e estágio clínico;
  • localização da lesão em relação à uretra, ao esfíncter e aos feixes neurovasculares.

Por isso, a ressonância e a biópsia por fusão têm papel central. Se os exames não contam a mesma história, a segurança da terapia focal diminui.

Saiba mais sobre a ressonância multiparamétrica e a biópsia de próstata com fusão de imagens.

Como funciona o HIFU no câncer de próstata e a concentração da energia sobre o tumor
No HIFU, as ondas atravessam os tecidos com baixa intensidade e concentram energia térmica no ponto planejado. O mapeamento correto define o alvo e a margem de segurança.

Quem pode considerar HIFU focal no câncer de próstata?

No Brasil, a regulamentação do Conselho Federal de Medicina define critérios específicos. Em geral, o melhor candidato apresenta um tumor localizado, de risco intermediário favorável, unilateral e bem identificado na ressonância e na biópsia.

Além disso, o especialista avalia fatores que influenciam a aplicação da energia. Entre eles estão tamanho da próstata, calcificações, posição do tumor, sintomas urinários e cirurgias anteriores.

O HIFU focal pode fazer sentido quando o paciente:

  • possui uma área dominante de câncer clinicamente significativo;
  • não apresenta metástases nem extensão relevante para fora da próstata;
  • valoriza a preservação urinária e sexual;
  • entende a possibilidade de novo tratamento no futuro;
  • aceita realizar PSA, ressonância e biópsias de controle.

Por outro lado, homens com câncer de baixo risco costumam encontrar na vigilância ativa uma opção segura. Já tumores extensos, bilaterais relevantes ou biologicamente mais agressivos podem exigir cirurgia, radioterapia ou outra estratégia para toda a glândula.

Assim, escolher HIFU apenas porque ele parece menos invasivo não basta. A indicação precisa respeitar a biologia e a distribuição do tumor.

Como é o procedimento e a recuperação no HIFU para o câncer de próstata?

O HIFU costuma ocorrer em ambiente hospitalar, sob anestesia. O médico delimita o alvo e acompanha cada aplicação no monitor. Como a próstata pode inchar, muitos pacientes usam uma sonda urinária por alguns dias.

Depois, podem surgir ardor, urgência para urinar, sangue na urina ou desconforto pélvico. Em geral, esses sintomas diminuem ao longo dos dias. No entanto, retenção urinária, infecção e estreitamento do canal urinário também podem ocorrer.

A maioria dos homens retoma atividades leves em pouco tempo. Ainda assim, o acompanhamento permanece prolongado.

Quais resultados podemos esperar do HIFU focal?

Os estudos mostram um cenário promissor para homens bem selecionados. Em séries contemporâneas, a continência urinária costuma permanecer preservada na grande maioria dos pacientes. A função erétil também tende a sofrer menos impacto do que após tratamentos de toda a próstata, embora possa piorar.

Em um estudo multicêntrico com 625 homens, 88% permaneceram livres de tratamento radical, terapia sistêmica, metástases ou morte pelo câncer aos cinco anos. Além disso, 98% não apresentaram metástases.

Dados mais recentes dos registros britânicos HEAT e ICE acompanharam 3.477 pacientes tratados com HIFU focal ou crioterapia. Em dez anos, a mortalidade específica pelo câncer foi baixa, e 3,3% desenvolveram metástases. No entanto, cerca de um terço realizou novo tratamento local e 30% migrou para cirurgia ou radioterapia ao longo do seguimento.

Esses números revelam as duas faces da terapia focal. Muitos homens evitam ou adiam um tratamento radical. Porém, preservar parte da próstata mantém a possibilidade de doença residual, recorrência ou outro foco.

Além disso, a maior parte das evidências vem de registros e estudos observacionais. Ainda faltam comparações randomizadas de longo prazo com cirurgia e radioterapia. Por esse motivo, as diretrizes europeias recomendam registrar os casos de HIFU focal de forma prospectiva.

Por que o acompanhamento após o HIFU é diferente?

Após a retirada completa da próstata, espera-se que o PSA fique praticamente indetectável. Depois do HIFU focal, parte da glândula continua produzindo PSA. Portanto, não existe um único valor que, sozinho, defina sucesso ou falha.

O acompanhamento combina informações:

  • evolução do PSA ao longo do tempo;
  • ressonância multiparamétrica;
  • biópsia da área tratada e das regiões não tratadas;
  • sintomas urinários, continência e função sexual.

As diretrizes atuais recomendam realizar PSA a cada três meses no primeiro ano, depois a cada seis meses por dois anos e, então, anualmente. Também prevê ressonância anual e biópsia entre seis e doze meses após o procedimento.

Por isso, o HIFU não representa “tratar e esquecer”. Na verdade, preservar a próstata exige uma vigilância mais detalhada.

O que é HIFU de resgate após radioterapia?

Às vezes, o PSA volta a subir anos depois da radioterapia. Isso pode indicar uma recidiva dentro da próstata ou uma doença que alcançou outros locais.

Quando a recidiva permanece localizada, o HIFU pode funcionar como resgate. O objetivo é controlar o foco sem retirar a próstata irradiada e, quando possível, adiar o bloqueio hormonal.

Por isso, a investigação costuma incluir ressonância, PET-CT com PSMA e nova biópsia. Um exame de imagem suspeito não substitui a confirmação por tecido antes de uma terapia de resgate.

Quem pode considerar HIFU após radioterapia?

O perfil mais favorável reúne quatro características:

  1. a biópsia confirma a recidiva dentro da próstata;
  2. os exames não mostram metástases ou linfonodos comprometidos;
  3. o tumor pode ser delimitado e alcançado com segurança;
  4. o paciente possui expectativa de vida e condições clínicas que justificam um novo tratamento local.

Além disso, PSA mais baixo no momento do resgate parece associar-se a melhores resultados. Portanto, investigar uma elevação consistente do PSA no momento correto pode ampliar as opções.

Ainda assim, nem toda recidiva local precisa de intervenção imediata. A velocidade de subida do PSA, o grau do tumor, o intervalo desde a radioterapia e as prioridades pessoais também influenciam a decisão.

Infográfico compara critérios para terapia focal primária com HIFU e HIFU de resgate após radioterapia.
Na terapia focal primária e no resgate após radioterapia, a indicação depende de doença localizada, mapeamento preciso e compromisso com o acompanhamento.

Quais são os resultados e os riscos do HIFU de resgate?

Em 2026, o estudo prospectivo HIFI-2 acompanhou 531 homens com recidiva confirmada por biópsia e sem metástases. Aos 30 meses, 71% ainda não precisavam de bloqueio hormonal. Entre pacientes com PSA até 4,5 ng/mL e tumor de menor grau, esse número chegou a 84%.

Uma análise publicada no mesmo ano reuniu diferentes tratamentos locais após radioterapia. Considerando todas as técnicas, mais da metade dos pacientes permaneceu sem bloqueio hormonal aos cinco anos. Contudo, não existem estudos randomizados suficientes para afirmar que o HIFU supera cirurgia, crioterapia ou uma nova radioterapia.

Além disso, tecidos irradiados cicatrizam de modo diferente. Por isso, o HIFU de resgate apresenta mais risco do que o HIFU usado como primeiro tratamento.

Entre as possíveis complicações estão:

  • piora da continência urinária;
  • retenção ou dificuldade para urinar;
  • infecção e estreitamento da uretra;
  • piora da função erétil;
  • lesão do reto ou fístula, que é rara, mas grave.

No HIFI-2, a incontinência grave aumentou de 7% antes do procedimento para 12% depois. Portanto, o possível benefício oncológico deve ser discutido junto com a função urinária existente e os riscos individuais.

HIFU focal ou tratamento de toda a próstata?

Essa escolha depende do mapa da recidiva. Uma lesão única e bem delimitada pode permitir tratamento focal. Porém, uma próstata irradiada pode esconder focos menores fora da área visível.

Quando a doença parece extensa, tratar uma área pequena pode deixar tumor relevante. Nesses casos, o especialista discute HIFU mais amplo, cirurgia de resgate, crioterapia, nova radioterapia, bloqueio hormonal ou acompanhamento. Consequentemente, a decisão precisa comparar controle, efeitos colaterais e opções futuras.

Perguntas frequentes sobre HIFU no câncer de próstata

HIFU é uma cirurgia?

Não no sentido tradicional. O procedimento não envolve cortes nem retirada da próstata. Entretanto, exige anestesia, estrutura hospitalar e acompanhamento especializado.

HIFU cura o câncer de próstata?

Pode controlar a doença por muitos anos em pacientes selecionados. Porém, nenhum especialista deve prometer cura com base apenas na tecnologia. O risco do tumor e o seguimento continuam determinantes.

O tratamento preserva a ereção e a continência?

O risco de perda funcional costuma ser menor na terapia focal do que nos tratamentos de toda a glândula. Ainda assim, retenção, incontinência e disfunção erétil podem ocorrer.

O HIFU pode ser repetido?

Em alguns casos, sim. Também podem permanecer possíveis cirurgia ou radioterapia. Contudo, cada novo tratamento altera os riscos. Por isso, o plano deve considerar não apenas o procedimento atual, mas também os caminhos futuros.

Um PSA baixo após HIFU prova que não existe tumor?

Não. O PSA ajuda a acompanhar a evolução, mas não substitui ressonância e biópsia. Isso ocorre porque parte da próstata continua presente e produzindo PSA.

Conclusão: o melhor resultado começa antes do HIFU

O HIFU no câncer de próstata permite concentrar energia em uma área definida, sem cortes e sem radiação ionizante. Na terapia focal, pode preservar continência e função sexual em homens criteriosamente selecionados. Após radioterapia, pode oferecer uma segunda oportunidade de controle local e adiar o bloqueio hormonal.

No entanto, a tecnologia não corrige uma indicação inadequada. O bom resultado começa com o mapeamento correto do tumor, passa por uma conversa transparente sobre limites e termina com acompanhamento de longo prazo.

Se você deseja saber se o HIFU faz sentido no seu caso, a avaliação deve integrar ressonância, biópsia, PSA, tratamentos anteriores e prioridades pessoais. Dessa forma, a escolha deixa de ser uma decisão sobre uma máquina e se torna uma estratégia para aquele tumor e para aquele paciente.

Leia também: Terapia focal no câncer de próstata: quem pode fazer?

Conheça minha atuação no tratamento do câncer de próstata

Sobre o especialista

O Dr. Maurício Murce Rocha é urologista com atuação em uro-oncologia, cirurgia robótica e terapias minimamente invasivas da próstata. Atua no A.C. Camargo Cancer Center e integra dados clínicos, ressonância, biópsia e estadiamento para selecionar o tratamento mais adequado em cada caso.

CRM-SP: 133.691 | RQE: 97.726

Referências médicas para aprofundamento

  1. Light A, et al. Oncological Outcomes Following Focal HIFU and Cryotherapy for Treatment of Nonmetastatic Prostate Cancer in the United Kingdom. European Urology. 2026. DOI: 10.1016/j.eururo.2026.05.007.
  2. Ploussard G, et al. Salvage High-intensity Focused Ultrasound for Prostate Cancer Recurrence after Radiotherapy — HIFI-2. European Urology Oncology. 2026. DOI: 10.1016/j.euo.2026.04.007.
  3. Miszczyk M, et al. Local Salvage Therapy Alone for Local Recurrence of Prostate Cancer After Radiotherapy. JAMA Oncology. 2026;12:637-647. DOI: 10.1001/jamaoncol.2026.1023.
  4. Guillaumier S, et al. A Multicentre Study of 5-year Outcomes Following Focal Therapy in Treating Clinically Significant Nonmetastatic Prostate Cancer. European Urology. 2018;74:422-429. DOI: 10.1016/j.eururo.2018.06.006.
  5. Peretsman SJ, et al. High-intensity focused ultrasound with visually directed power adjustment for focal treatment of localized prostate cancer. World Journal of Urology. 2024;42:175. DOI: 10.1007/s00345-024-04840-6.
  6. Valle LF, et al. A Systematic Review and Meta-analysis of Local Salvage Therapies After Radiotherapy for Prostate Cancer — MASTER. European Urology. 2021;80:280-292. DOI: 10.1016/j.eururo.2020.11.010.
  7. European Association of Urology. EAU Guidelines on Prostate Cancer — Treatment. Atualização de 2026.
  8. Conselho Federal de Medicina. Resolução CFM nº 2.457/2026. Regulamenta a indicação, a execução e o seguimento da crioterapia e do HIFU no câncer de próstata.

Aviso: este conteúdo tem finalidade educativa e não substitui uma avaliação médica. A indicação do HIFU depende do grau, da localização e da extensão do tumor, dos tratamentos anteriores, das condições clínicas e das preferências de cada paciente.

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