Entre a vigilância ativa e a cirurgia radical, conheça a abordagem de precisão desenhada para tratar o foco da doença preservando a qualidade de vida.
Resumo do que você encontrará neste Guia: Neste artigo, discutimos a terapia focal no câncer de próstata, uma estratégia que trata exclusivamente a área acometida pelo tumor clinicamente significativo, preservando o tecido saudável ao redor. Explicamos que essa abordagem não é um atalho genérico, mas uma indicação muito precisa para pacientes selecionados. Analisamos os dados científicos mais recentes de longo prazo sobre o uso de HIFU e crioterapia, também chamada de crioablação, os índices de preservação da função urinária e erétil e o compromisso mandatório com o acompanhamento periódico por meio de PSA, ressonância magnética e biópsias de controle.
Terapia Focal no Câncer de Próstata: Uma Terceira Via de Tratamento
Após o diagnóstico de um câncer de próstata, o paciente costuma se ver diante de duas opções clássicas: a Vigilância Ativa (quando o tumor é de risco muito baixo e apenas o monitoramos de perto) ou o Tratamento Radical (a remoção cirúrgica de toda a glândula ou a radioterapia completa).
No entanto, o avanço dos métodos diagnósticos trouxe à tona uma pergunta compreensível e frequente: “Doutor, se o meu tumor é pequeno e está localizado em apenas um lado da próstata, por que precisamos tratar o órgão inteiro?”.
A resposta da urologia contemporânea para essa pergunta chama-se: Terapia Focal.
Minha visão no consultório: A terapia focal não é uma tentativa de “fazer menos”. Ela é uma estratégia própria de alta precisão. Trata-se de destruir o tumor clinicamente significativo com uma margem de segurança adequada, poupando o restante da glândula saudável para reduzir o impacto sobre a continência urinária e a função erétil. Contudo, o maior desafio dessa técnica não reside na máquina ou na fonte de energia, mas em uma etapa crucial: selecionar o paciente ideal.
Saiba mais sobre o câncer de próstata e seu tratamento.
Como Funciona a Terapia Focal no Câncer de Próstata?
O princípio fundamental é direcionar diferentes formas de energia física diretamente ao alvo tumoral, guiando-se por métodos de imagem de alta resolução. As modalidades mais estudadas e consolidadas incluem:
HIFU — Ultrassom Focalizado de Alta Intensidade
Utiliza ondas de ultrassom concentradas para gerar calor intenso e provocar a necrose térmica das células tumorais no ponto focal exato.
Crioterapia ou Crioablação
Aplica temperaturas de congelamento extremo por meio de finas agulhas inseridas na área-alvo, destruindo as células tumorais por lise celular.
Eletroporação Irreversível
Emprega pulsos elétricos de alta voltagem para abrir microporos na membrana celular tumoral, levando à sua morte biológica sem calor excessivo.
Quem é o Candidato Ideal para Terapia Focal no Câncer de Próstata?
A terapia focal não é indicada para todos os homens. Uma boa seleção é o que protege o paciente de falhas oncológicas e garante que a técnica entregue seus benefícios com segurança.
O perfil de paciente que mais se beneficia reúne critérios rigorosos:
- Doença Localizada e Risco Intermediário Favorável: tumores com características biológicas adequadas para uma intervenção parcial.
- Lesão Dominante e Unilateral: uma lesão visível e delimitada, sem extensão para fora da cápsula prostática ou acometimento significativo dos dois lados do órgão.
- Concordância entre Ressonância e Biópsia: a imagem de ressonância e a biópsia de precisão devem “contar exatamente a mesma história” sobre a localização e a agressividade do tumor. Entenda melhor o papel da ressonância multiparamétrica e da biópsia por fusão.
- Prioridade em Preservar a Qualidade de Vida: homens que valorizam a manutenção da função sexual e urinária, desde que isso não comprometa a segurança do tratamento oncológico.
- Compromisso Rígido com o Seguimento: a aceitação de que manter a próstata exige acompanhamento médico contínuo por vários anos.
Casos em que a Terapia Focal não Costuma ser Indicada:
- Tumores bilaterais relevantes, nos quais tratar apenas um foco deixaria doença agressiva para trás.
- Doença de alto risco, tumores com extensão extracapsular nítida ou acometimento de linfonodos.
- Discordância diagnóstica, quando a biópsia aponta tumor agressivo onde a imagem não localizou com clareza.
- Pacientes que não desejam realizar exames e biópsias periódicas de controle.
O Que os Estudos Demonstram Sobre a Terapia Focal?
A literatura médica internacional recente trouxe dados robustos de longo prazo que conferem maturidade a essa estratégia.
No estudo de 10 anos dos registros prospectivos HEAT e ICE, que acompanhou 3.477 homens tratados com HIFU ou crioterapia em 14 centros britânicos:
- A mortalidade específica por câncer de próstata em 10 anos foi de apenas 0,13%.
- O índice de desenvolvimento de metástases em uma década foi de 3,3%.
No que tange aos desfechos funcionais e de qualidade de vida, uma revisão sistemática e metanálise publicada no European Urology Oncology, reunindo 50 estudos prospectivos e 4.615 pacientes, demonstrou taxas reduzidas de complicações:
- Apenas 3% de eventos adversos graves.
- Apenas 3% de incontinência urinária com necessidade de absorvente.
- Taxa de nova disfunção erétil em cerca de 11%.
- 82% dos pacientes permaneceram livres de tratamento radical ou terapia sistêmica ao final de cinco anos.
Um ponto de cautela técnica: embora as comparações indiretas sugiram menor impacto funcional do que cirurgias ou radioterapias de toda a glândula, a terapia focal não pode ser rotulada como “superior”, uma vez que os estudos prospectivos atuais possuem seguimentos medianos mais curtos e populações altamente selecionadas.
No Brasil, a Resolução CFM nº 2.457/2026 regulamentou a indicação, a execução e o seguimento da crioterapia e do HIFU como alternativas de tratamento do câncer de próstata em casos selecionados. Ao mesmo tempo, as diretrizes de 2026 da Associação Europeia de Urologia mantêm uma posição cautelosa e recomendam que a terapia focal seja oferecida dentro de estudos clínicos ou registros prospectivos. Essa diferença reforça a importância da seleção criteriosa, da decisão compartilhada e do acompanhamento em centros experientes.
Preservar a Próstata Exige Vigilância Contínua: Como Acompanhar Após a Terapia Focal?
O procedimento de terapia focal termina no dia da intervenção, mas o acompanhamento médico, não. Como a maior parte da próstata permanece íntegra, esse tecido residual pode, com os anos, desenvolver novas alterações.
No mesmo estudo de 10 anos, 33% dos homens precisaram de um novo tratamento local, e cerca de 30% migraram para um tratamento radical ao longo do seguimento. Ter clareza sobre essa possibilidade de retratamento antes de tomar a decisão é indispensável.
O protocolo de controle deve ser seguido com método:
- Curva de PSA Periódica: como a próstata não é retirada, não existe um valor único de PSA zero. Acompanhamos a velocidade e a estabilidade da curva ao longo dos meses.
- Ressonância Magnética: realizada aos 12 meses após o tratamento e mantida em intervalos regulares, seguindo consensos internacionais como as recomendações TARGET.
- Biópsia de Controle: uma reavaliação tecidual programada para assegurar que a área tratada está livre de células tumorais viáveis e que novas áreas suspeitas não surgiram.
Conclusão: Escolher o Tratamento Certo para o Homem Certo
A Terapia Focal representa um marco na transição para uma urologia mais personalizada e menos invasiva. Ela oferece a homens criteriosamente selecionados a oportunidade de tratar o foco de tumor clinicamente relevante com poucas sequelas sobre sua rotina e sexualidade.
A decisão por essa modalidade, contudo, nunca deve se basear apenas no desejo de fugir da cirurgia ou de buscar a tecnologia mais recente. A escolha precisa ser guiada pela segurança oncológica, pela biologia do tumor e pela disposição do paciente em manter um acompanhamento rigoroso. O melhor tratamento não é o mais agressivo nem o mais brando: é o mais seguro e adequado para o seu cenário específico.
Quando a terapia focal não é a opção mais adequada, outros tratamentos, como a cirurgia robótica para o câncer de próstata, podem oferecer segurança oncológica com técnicas voltadas à preservação funcional. A decisão deve ser sempre individualizada.
Saiba mais sobre a cirurgia robótica no câncer de próstata.
Sobre o Especialista
O Dr. Maurício Murce Rocha é urologista com atuação em uro-oncologia, cirurgia robótica e terapias minimamente invasivas da próstata, com mais de 10 anos de experiência no cuidado de pacientes com câncer de próstata. Atua no A.C. Camargo Cancer Center e integra métodos avançados de imagem, biópsia por fusão e avaliação individualizada para definir quando a terapia focal pode oferecer benefícios oncológicos e funcionais com segurança.
Se você recebeu um diagnóstico de câncer de próstata e deseja compreender se a terapia focal é adequada para o seu caso, uma avaliação especializada pode ajudar a interpretar a ressonância, a biópsia e as características biológicas do tumor antes da escolha do tratamento.
CRM-SP: 133.691 | RQE: 97.726
Referências Médicas para Aprofundamento
- Oncological Outcomes Following Focal HIFU and Cryotherapy for Treatment of Nonmetastatic Prostate Cancer in the United Kingdom: An Updated Analysis of 3477 Patients from the Prospective HEAT and ICE Registries. European Urology, 2026. DOI: 10.1016/j.eururo.2026.05.007.
- Outcomes of Focal Therapy for Localized Prostate Cancer: A Systematic Review and Meta-analysis of Prospective Studies. European Urology Oncology, 2025. DOI: 10.1016/j.euo.2025.02.003.
- The Transatlantic Recommendations for Prostate Gland Evaluation with Magnetic Resonance Imaging After Focal Therapy — TARGET. European Urology, 2024. DOI: 10.1016/j.eururo.2024.02.001.
- EAU Guidelines on Prostate Cancer — Treatment. European Association of Urology, atualização de 2026.
- Resolução CFM nº 2.457/2026: regulamentação da indicação, execução e seguimento da crioterapia e do ultrassom focado de alta intensidade como alternativas de tratamento do câncer de próstata.



