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Médico analisando imagens de PET-CT com PSMA para avaliar a extensão do câncer de próstata.
segunda-feira, 31 agosto 2026 / Publicado em Blog

PET-CT com PSMA no Câncer de Próstata: Quando o Exame Faz Diferença?

O PET-CT com PSMA cria um mapa molecular da doença e pode revelar focos antes invisíveis. Mas sua verdadeira utilidade depende de uma pergunta essencial: o resultado terá capacidade de mudar o tratamento?

O que você vai encontrar neste artigo: Neste artigo, você entenderá como funciona o PET-CT com PSMA e em quais situações ele pode contribuir para o cuidado do câncer de próstata. Também verá como o exame participa do estadiamento inicial, da investigação do PSA que volta a subir e do planejamento de alguns tratamentos.

Ao longo da leitura, você encontrará:

  • as principais indicações do PET-CT com PSMA.
  • a relação entre o nível do PSA e a chance de detectar uma recidiva.
  • os motivos pelos quais um resultado negativo não exclui doença microscópica.
  • os limites do exame e a importância de interpretá-lo junto com a ressonância, a biópsia e o histórico do paciente.
  • perguntas que ajudam a saber se o exame pode realmente mudar uma decisão no seu caso.

Durante décadas, a tomografia e a cintilografia óssea foram os principais exames usados para mapear o câncer de próstata. Eles continuam úteis, mas procuram mudanças na forma dos órgãos ou reações do osso. Por isso, algumas lesões pequenas podem não aparecer.

Saiba mais sobre o câncer de próstata.

O PET-CT com PSMA trouxe uma nova forma de enxergar a doença. Ele não avalia apenas o tamanho e a forma dos órgãos. Também busca um alvo presente em muitas células do câncer de próstata. Assim, pode localizar focos em linfonodos, ossos e outros órgãos antes que causem mudanças visíveis.

Essa maior sensibilidade, porém, precisa ser usada com critério. Encontrar mais alterações não significa, por si só, tratar mais. O exame tem valor quando responde a uma dúvida clínica relevante e ajuda a escolher uma conduta mais adequada.

O que é o PET-CT com PSMA?

PSMA é a sigla em inglês para antígeno de membrana específico da próstata. Trata-se de uma proteína encontrada em níveis elevados na superfície de muitas células do câncer de próstata.

O exame usa um radiofármaco. Trata-se de uma pequena molécula ligada a um marcador, como o gálio-68 ou o flúor-18. Ela circula pelo corpo e se conecta às células que expressam PSMA. O aparelho registra onde o marcador se concentra e combina essa informação com as imagens da tomografia.

O resultado funciona como um mapa molecular. Ele pode mostrar:

  • doença restrita à próstata.
  • comprometimento de linfonodos.
  • metástases ósseas.
  • focos em outros órgãos.
  • possíveis locais de retorno da doença após o tratamento.

Nem toda área que capta o marcador representa câncer. Além disso, alguns tumores expressam pouco PSMA, e lesões microscópicas podem ficar abaixo da capacidade de detecção do aparelho. Por isso, o laudo nunca deve ser interpretado de forma isolada.

Minha visão no consultório: o PET-CT com PSMA não é apenas uma imagem mais nítida. Ele acrescenta uma informação funcional que pode mudar a estratégia terapêutica. Ainda assim, a principal pergunta não é “o exame consegue encontrar alguma coisa?”, mas “o resultado mudará uma decisão importante para este paciente?”.

Para quem este exame costuma fazer sentido?

De modo geral, a avaliação do PET-CT com PSMA pode ser relevante em três situações:

  1. Diagnóstico recente de doença de risco intermediário desfavorável ou de alto risco: para investigar se o tumor permanece localizado ou se há disseminação não identificada pelos exames convencionais.
  2. Elevação do PSA após cirurgia ou radioterapia: para procurar o local de uma possível recidiva.
  3. Doença metastática avançada: em alguns pacientes, para avaliar tratamentos dirigidos ao PSMA, como a terapia com lutécio-177.

O exame não costuma ser necessário para todo homem com câncer de próstata. Em tumores de baixo risco ou risco intermediário favorável, a chance de disseminação é menor. Nesses casos, o resultado pode não mudar a conduta.

PET-CT com PSMA no estadiamento inicial

Após a biópsia confirmar o diagnóstico, o próximo passo é entender a extensão da doença. Essa etapa recebe o nome de estadiamento.

Nos pacientes com risco intermediário desfavorável, alto risco ou doença localmente avançada, o PET-CT com PSMA pode ajudar a responder se o tumor está:

  • limitado à próstata.
  • presente nos linfonodos da pelve.
  • disseminado para ossos ou outros órgãos.

Essa informação pode influenciar:

  • a intenção do tratamento: local e potencialmente curativo ou combinado com tratamento sistêmico.
  • a área tratada: como os campos da radioterapia e a abordagem dos linfonodos.
  • a sequência terapêutica: a ordem entre cirurgia, radioterapia e medicamentos.
  • a conversa sobre benefícios e limites de cada opção.

O estudo randomizado proPSMA comparou o PET-CT com PSMA aos exames convencionais. Participaram 302 homens com câncer de próstata de alto risco. A acurácia para detectar doença nos linfonodos da pelve ou metástases foi de 92% com o PET-CT com PSMA. Com tomografia e cintilografia óssea, foi de 65%. O exame também levou a mais mudanças de conduta: 28% contra 15%.

Esses números mostram por que o exame ganhou espaço no estadiamento de pacientes selecionados. Eles não significam, entretanto, que todo diagnóstico de câncer de próstata exija um PET-CT com PSMA.

PET-CT com PSMA na recidiva bioquímica

Outra indicação importante ocorre quando o PSA volta a subir depois da prostatectomia ou da radioterapia. Essa situação é chamada de recidiva bioquímica.

O aumento do PSA sinaliza que pode haver atividade tumoral, mas não mostra onde ela está. A doença pode estar na região onde ficava a próstata, nos linfonodos ou em um local distante.

Quando o PSA ainda está baixo, a tomografia e a cintilografia óssea frequentemente não encontram alterações. O PET-CT com PSMA tem maior capacidade de localizar pequenos focos e pode ajudar a planejar um tratamento de resgate.

Em um estudo prospectivo com 635 pacientes, a taxa de detecção do PET com gálio-68-PSMA-11 aumentou de acordo com o nível de PSA:

  • PSA abaixo de 0,5 ng/mL: 38%.
  • PSA entre 0,5 e menos de 1,0 ng/mL: 57%.
  • PSA entre 1,0 e menos de 2,0 ng/mL: 84%.
  • PSA entre 2,0 e menos de 5,0 ng/mL: 86%.
  • PSA igual ou superior a 5,0 ng/mL: 97%.
PET-CT com PSMA no Câncer de Próstata: Quando o Exame Faz Diferença?
Em estudo com 635 pacientes, a taxa de detecção do PET-CT com PSMA aumentou conforme o valor do PSA. Fonte: Fendler et al., JAMA Oncology, 2019.

Esses resultados ajudam a entender por que a chance de um exame positivo cresce à medida que o PSA aumenta. No entanto, não devemos esperar o PSA subir apenas para aumentar a possibilidade de encontrar uma lesão.

Em algumas situações, a radioterapia de resgate oferece mais chance de controle quando começa cedo. Portanto, um PET-CT com PSMA negativo não deve atrasar um tratamento já indicado por outros critérios.

Se o PSA voltou a subir após cirurgia ou radioterapia, o ponto central não é apenas pedir o exame. Também precisamos avaliar a curva do PSA, o laudo da cirurgia e o tempo desde o tratamento. A velocidade de elevação do PSA também importa.

Um PET-CT com PSMA negativo exclui a doença?

Não. Esse é um dos cuidados mais importantes na interpretação do exame.

Um resultado negativo indica que não foram identificados focos com captação suficiente para aparecer nas imagens. Ainda pode existir doença microscópica ou um tumor com baixa expressão de PSMA.

PET-CT com PSMA no Câncer de Próstata: Quando o Exame Faz Diferença?
Lesões microscópicas ou tumores com baixa expressão de PSMA podem permanecer abaixo do limite de detecção do exame.

Isso é muito importante na recidiva após a cirurgia. O PSA pode começar a subir antes que uma lesão se torne visível. Nesse cenário, a decisão sobre radioterapia de resgate não deve depender apenas do PET-CT.

Da mesma forma, uma área com captação não deve ser chamada de metástase sem uma análise cuidadosa. O local, o padrão da imagem e o contexto clínico importam. Inflamações, mudanças benignas e outros tumores também podem captar o marcador.

O PET-CT com PSMA pode substituir a biópsia?

Na prática atual, o PET-CT com PSMA não costuma substituir a biópsia no diagnóstico inicial. A biópsia ainda define o tipo do tumor, o grupo de grau e outros dados que orientam o tratamento.

A ressonância multiparamétrica e a biópsia por fusão permanecem no centro da investigação diagnóstica.

Saiba mais sobre a ressonância multiparamétrica e a biópsia por fusão na investigação do câncer de próstata.

O estudo randomizado de fase 3 PRIMARY2, publicado no The Lancet Oncology em junho de 2026, avaliou 660 homens ainda sem biópsia. Todos apresentavam suspeita clínica de câncer de próstata e ressonância PI-RADS 3 ou PI-RADS 2 associada a fatores de maior risco.

No grupo que realizou PET-CT com gálio-68-PSMA-11, os exames positivos levaram à biópsia dirigida. Os homens com exame negativo não fizeram biópsia e seguiram em controle. Após seis meses, 49% dos participantes desse grupo haviam evitado o procedimento. O câncer clinicamente significativo foi detectado em 12% no grupo do PET-CT e em 16% no grupo da biópsia sistemática. Essa diferença ficou dentro do limite de não inferioridade definido pelo estudo.

É uma evidência relevante, mas vale para um perfil bem selecionado. Os autores ainda pedem estudos de custo e validação com outros radiofármacos. Portanto, o PRIMARY2 não justifica trocar a biópsia pelo PET-CT em todos os homens com PSA elevado.

Outros usos do PET-CT com PSMA

Além do estadiamento inicial e da investigação de recidiva, o exame pode participar de outras decisões:

Planejamento da radioterapia

Ao localizar linfonodos ou outros focos, o PET-CT pode contribuir para definir os campos e as doses de radiação. O resultado precisa ser integrado ao planejamento do radio-oncologista.

Seleção para terapia com lutécio-177-PSMA

Na medicina teranóstica, o mesmo alvo é usado para localizar e tratar as células do tumor. Em alguns pacientes com doença metastática avançada, o exame avalia a expressão de PSMA. Esse dado ajuda a selecionar o tratamento com lutécio-177-PSMA.

Avaliação de situações complexas

Às vezes, a tomografia, a cintilografia, a ressonância, o PSA e a biópsia parecem contar histórias diferentes. O PET-CT pode acrescentar uma nova peça ao raciocínio. Mesmo assim, pode ser necessário rever as imagens e o material da biópsia ou da cirurgia.

Como saber se o PET-CT com PSMA pode ajudar no seu caso?

Antes de solicitar o exame, vale responder a quatro perguntas junto com o seu médico:

  1. Qual é a dúvida clínica que precisamos esclarecer?
  2. O que faremos se o resultado for positivo?
  3. O que faremos se o resultado for negativo?
  4. O exame pode mudar de forma concreta o plano de tratamento?

Essas perguntas evitam tanto o uso insuficiente quanto o excesso de exames. Também ajudam o paciente a compreender por que o PET-CT foi solicitado e como cada resultado poderá influenciar sua decisão.

Para uma avaliação especializada, é útil levar à consulta:

  • todos os resultados de PSA, de preferência em ordem cronológica.
  • laudo e imagens da ressonância.
  • resultado completo da biópsia ou da cirurgia.
  • laudos dos tratamentos já realizados.
  • exames de imagem anteriores.

Conclusão: enxergar melhor para decidir com mais precisão

O PET-CT com PSMA ampliou nossa capacidade de mapear o câncer de próstata. Ele pode melhorar o estadiamento de tumores de maior risco. Também pode localizar focos quando o PSA volta a subir e orientar tratamentos em casos avançados.

Sua maior precisão não elimina, contudo, a necessidade de julgamento clínico. Lesões microscópicas ainda podem passar despercebidas, áreas benignas podem apresentar captação e nem todo achado exige intensificação do tratamento.

O verdadeiro valor do exame aparece quando ele é analisado junto com a história do paciente. PSA, ressonância, biópsia e tratamentos anteriores também fazem parte da decisão. Enxergar melhor é importante. Saber o que fazer com a informação é o que transforma tecnologia em cuidado de qualidade.

Se você recebeu um diagnóstico de maior risco, o PET-CT com PSMA pode fazer sentido. O mesmo vale quando o PSA volta a subir após cirurgia ou radioterapia. Uma avaliação individual pode mostrar se o exame tem chance real de mudar sua conduta. Na consulta, também é possível rever os exames e discutir as opções com equilíbrio entre controle do tumor e qualidade de vida.

Sobre o especialista

O Dr. Maurício Murce Rocha é urologista com atuação em uro-oncologia, cirurgia robótica e terapias minimamente invasivas da próstata. Atua no A.C. Camargo Cancer Center e integra informações do PSA, ressonância, biópsia, anatomopatológico e exames moleculares para planejar o tratamento de forma individualizada.

CRM-SP: 133.691 | RQE: 97.726

Referências médicas para aprofundamento

  1. Hofman MS, et al. Prostate-specific membrane antigen PET-CT in patients with high-risk prostate cancer before curative-intent surgery or radiotherapy (proPSMA): a prospective, randomised, multicentre study. The Lancet. 2020;395(10231):1208-1216. DOI: 10.1016/S0140-6736(20)30314-7.
  2. Fendler WP, et al. Assessment of 68Ga-PSMA-11 PET Accuracy in Localizing Recurrent Prostate Cancer: A Prospective Single-Arm Clinical Trial. JAMA Oncology. 2019;5(6):856-863. DOI: 10.1001/jamaoncol.2019.0096.
  3. Buteau JP, et al. Effect of 68Ga-PSMA-11 PET-CT in the diagnosis of prostate cancer in men with equivocal or clinically high-risk non-suspicious findings on multiparametric MRI (PRIMARY2): a multicentre, non-inferiority, phase 3, randomised controlled trial. The Lancet Oncology. 2026;27(7):839-848. Publicado online em 10 de junho de 2026. DOI: 10.1016/S1470-2045(26)00120-8.
  4. EAU Guidelines on Prostate Cancer — Diagnostic Evaluation. European Association of Urology, atualização de 2026.
  5. EAU Guidelines on Prostate Cancer — Treatment. European Association of Urology, atualização de 2026.

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